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Ferramentas e hardware necessários para bordar com fio grosso
O bordado com fio grosso — muitas vezes descrito como bordado “estilo chenille” ou “loop” — é uma técnica de alto valor que acrescenta textura e um acabamento premium, pronto para venda, em peças de vestuário. No entanto, para quem opera a máquina, é uma mudança real de “física” do processo: deixa-se de trabalhar com uma linha fina que desliza facilmente nos discos de tensão e passa-se a gerir um cordão volumoso e texturado, com mais arrasto, fricção e risco de colisões mecânicas.
A transição do bordado standard para fio grosso é, na prática, uma competência “nível 2”. Exige sair do automatismo (sobretudo na forma como se pensa a tensão) e fazer ajustes mecânicos precisos na cabeça da máquina. Se se tentar com folgas de calcador típicas do bordado normal, aumenta-se o risco de batidas do calcador, fio desfiado e até agulhas empenadas.
Neste guia, é feita a desmontagem do processo: instalação do acessório de fio grosso, calibração da folga crítica de 5 mm, e a lógica de software necessária para evitar encravamentos do cortador.

O que vai aprender (e porque é importante)
- Segurança mecânica: Como remover o calcador standard e montar o acessório de fio grosso sem danificar parafusos de aperto (set screws) delicados.
- Calibração de precisão: Como usar uma medida física para garantir ≥ 5 mm de folga, evitando a “batida do calcador” (quando o calcador toca no bastidor ou na chapa da agulha).
- Lógica de centragem: Como garantir que a agulha passa perfeitamente pelo centro do orifício alargado do calcador de fio grosso.
- Engenharia do percurso: Como substituir o componente com mola/guia por um guia de baixa resistência para reduzir arrasto.
- Bypass no software: Como configurar a Smartstitch para forçar a Agulha 15 a “Jump without trimming” (salto sem corte), protegendo a lâmina do cortador de encravar com fibras grossas.
Consumíveis “escondidos” e verificações de preparação (não saltar)
No bordado, 80% do sucesso está na preparação. Antes de desapertar um único parafuso, convém ter a bancada organizada: parar a meio por falta de ferramenta aumenta a probabilidade de erro.
Checklist de preparação (terminar esta secção com tudo pronto):
- Chave Allen 1,5 mm: Essencial para os parafusos de aperto do conjunto da barra da agulha/calcador.
- Chave Allen 5 mm: Serve como calibre Passa/Não Passa para a folga.
- Ferramenta para os parafusos laterais da cabeça: (normalmente uma chave maior ou uma chave de fendas, como no vídeo) para ajustar a altura do conjunto.
- Tesoura de precisão: Nesta técnica, os cortes são geridos manualmente; o auto-corte fica desativado.
- Bobine de fio grosso: Chenille/veludo/lã pesada (confirmar que é adequado para bordado à máquina; não confundir com fio para tricô manual).
- Estabilizador (entretela) de bordado: O fio grosso puxa mais; em malhas, um cut-away é normalmente a opção mais segura.
- Escova/pera de ar: Para limpar a zona da bobina antes de começar (o fio grosso tende a largar mais “pêlo”).
- Tabuleiro magnético para peças: Para não perder parafusos pequenos durante a troca.
Verificação de realidade na montagem no bastidor (malhas + fio grosso)
A demonstração do vídeo é feita em tecido preto de malha. É um cenário comum, mas exigente: o fio grosso acrescenta peso e arrasto. Se a montagem no bastidor ficar frouxa, a alimentação do fio pode distorcer o tecido, criando franzidos e “tunneling” à volta do desenho.
Além disso, ao elevar o calcador para obter a folga necessária, perde-se parte do efeito de “contenção” que um calcador standard dá ao tecido. Na prática, a estabilidade passa a depender muito mais do bastidor.
Se surgirem marcas do bastidor (brilhos/pressão em veludos, felpas ou malhas mais sensíveis) ou se não for possível apertar o suficiente sem deformar o grão da malha, isso é muitas vezes uma limitação do hardware, não uma falha de técnica. Um bastidor de bordado magnético é frequentemente a solução profissional: em vez de “beliscar” o tecido com parafuso, o sistema magnético aplica força de aperto mais uniforme e segura materiais espessos sem obrigar a esticar em excesso. Isto é particularmente útil em produção de hoodies grossos ou toalhas.

Passo a passo: ajustar a altura do calcador e a folga
O sucesso do bordado com fio grosso depende da folga vertical. No bordado standard, o calcador trabalha muito perto da chapa para controlar a oscilação do tecido. Já o acessório de fio grosso tem de “flutuar” mais alto para permitir que o fio forme loops sem ser esmagado.

Passo 1 — Remover o calcador standard (00:04–00:18)
- Localizar o parafuso de aperto: Identificar o pequeno parafuso que fixa o calcador standard à barra.
- Desapertar com cuidado: Inserir a chave Allen de 1,5 mm e rodar no sentido anti-horário. Idealmente, não retirar o parafuso por completo — basta desapertar o suficiente para libertar o calcador.
- Retirar: Deslizar o calcador para baixo e guardar de imediato no tabuleiro de peças.
Ponto de controlo: Verificar se o poste de montagem está limpo (sem cotão/óleo). Um encaixe limpo ajuda o novo calcador a assentar direito.

Passo 2 — Instalar o calcador de fio grosso (00:19–00:39)
- Montar: Deslizar o calcador específico de fio grosso para o poste de montagem.
- Alinhar: Garantir que fica orientado para a frente. Qualquer rotação pode fazer a agulha tocar na lateral do orifício.
- Apertar: Apertar o parafuso com a Allen de 1,5 mm com firmeza, sem exagerar ao ponto de espanar a rosca.
Resultado esperado: O calcador deve ficar sólido, sem folgas ao toque.

Passo 3 — Definir a folga crítica: ≥ 5 mm (00:40–01:20)
Esta é a calibração mais importante. Usa-se a chave Allen de 5 mm como calibre físico porque é uma referência fixa e objetiva.
- Inserção do calibre: Colocar a Allen de 5 mm plana sobre a chapa (ou encostada ao tecido já montado no bastidor) e fazê-la passar por baixo do calcador.
- Diagnóstico tátil:
- Se não entra: folga demasiado baixa.
- Se entra com muita fricção: está no limite.
- Se desliza livremente: está numa zona segura.
- Ajuste (se estiver apertado):
- Desapertar os dois parafusos laterais do conjunto da cabeça (o chassis que suporta o mecanismo do calcador).
- Elevar manualmente o conjunto.
- Voltar a testar com a Allen de 5 mm.
- Verificação de centragem: Confirmar visualmente que a agulha fica exatamente centrada no orifício do calcador (no vídeo é mostrado como ponto crítico).
- Fixar: Apertar novamente os dois parafusos laterais mantendo a altura.
Pontos de controlo:
- A Allen de 5 mm passa por baixo do calcador sem bloquear.
- A agulha está centrada (concêntrica) no orifício do calcador.
- O calcador está paralelo à chapa, sem inclinação.
Resultado esperado: Uma folga que parece “grande demais” para quem só faz bordado standard (cerca de 5–6 mm). Aqui, essa folga é margem de segurança para evitar que o fio prenda e force a agulha.
Porque a folga de 5 mm é crítica (contexto técnico)
O fio grosso comporta-se como uma corda macia. Ao formar o ponto, o fio “abre” e ocupa volume. Com menos de 5 mm, tendem a surgir dois problemas:
- Arrasto por compressão: o calcador pressiona o fio contra o tecido durante os movimentos, aumentando o arrasto e podendo afetar o alinhamento.
- Falha de loop: o loop não se forma corretamente, levando a falhas de ponto ou “ninhos” na zona da bobina.
Em oficinas com uma máquina de bordar de 15 agulhas, é comum dedicar uma agulha (por exemplo, a 15) a trabalhos especiais, mantendo as restantes agulhas ajustadas para bordado standard.
Enfiamento da máquina para fio pesado
A fricção é o inimigo. Percursos de linha standard usam discos de tensão para “apertar” a linha; com fio grosso, é essencial reduzir pontos de estrangulamento, caso contrário o fio desfia, cria cotão e suja rapidamente a máquina.

Passo 4 — Substituir o componente de tensão/guia (01:21–02:04)
- Remover o componente standard: Desaparafusar o componente com mola/guia na frente da cabeça.
- Instalar o guia para fio grosso: Montar o componente específico com argola/guia mais larga, pensado para materiais “tipo cordão” sem os beliscar.
- Posicionamento: Ajustar o braço do guia para a posição intermédia (como indicado no vídeo) e apertar.
Ponto de controlo: Confirmar que o percurso é suave. Qualquer rebarba pode prender fibras e causar falhas de alimentação.

Passo 5 — Colocar e enfiar o fio grosso (02:09–02:47)
- Colocar a bobine: Assentar a bobine grande no suporte e garantir que desenrola sem travões nem torções.
- Percurso de enfiamento (como no vídeo):
- Passar pelo tubo/guia traseiro.
- Descer pelo percurso superior.
- Passar pelo guia intermédio recém-instalado.
- Enfiar pelo orifício do calcador de fio grosso.
- Teste de resistência: Puxar alguns centímetros de fio através do calcador. Deve deslizar com pouca resistência. Se “agarra”, há fricção a montante (guia mal alinhado, fio preso, ou percurso demasiado apertado).
Atenção (do vídeo): Evitar segurar o fio esticado durante o teste/arranque. Se o fio estiver preso pela mão, o acessório pode deixar de o conseguir puxar.


Nota prática: malhas + estabilizador + fio grosso
O vídeo mostra uma malha preta. Malhas esticam; fio grosso puxa. Sem estabilização adequada, aumentam os franzidos e a deformação.
Regra prática: Em malhas, um estabilizador cut-away tende a ser mais fiável do que tear-away para suportar o peso e o volume do ponto com fio grosso.
Se houver dificuldade em repetir a posição do bordado (por exemplo, centro do peito em séries), a variabilidade da montagem manual no bastidor aumenta muito. Uma estação de colocação de bastidores para máquina de bordar ajuda a manter a peça e o bastidor numa relação fixa, melhorando consistência mesmo com a espessura adicional do tecido e do estabilizador.
Definições essenciais no software: desativar cortes e gerir saltos
As máquinas de bordar, por defeito, cortam a linha entre saltos. Aqui, é obrigatório desativar o corte. As lâminas do cortador não foram concebidas para cortar fio grosso e fibroso; tentar fazê-lo pode encravar o mecanismo e provocar erro/paragem.

Passo 6 — Desativar o auto-corte e definir o comportamento da Agulha 15 (02:48–03:11)
No painel Smartstitch, os nomes podem variar ligeiramente conforme o firmware, mas a lógica é a mesma:
- Entrar nas definições: ir a “Setting” (Definições) > “User parameters” (Parâmetros do utilizador).
- Abrir parâmetros de corte: selecionar “Thread trimming parameters” (Parâmetros de corte de linha).
- Desativação global: em “Jump and trim stitch”, escolher “Modify ALL” e mudar de Yes para No.
- Ajuste por agulha: avançar para a página seguinte com a lista de agulhas.
- Lógica da Agulha 15: definir Needle Position 15 como “Jump without trimming”.
- Confirmar: gravar/confirmar e voltar ao ecrã principal.
Ponto de controlo: Confirmar no ecrã principal que o corte automático está efetivamente desligado para a agulha ativa.
Resultado esperado: Nos movimentos de salto, a máquina deixa “pontes” de fio (jump) em vez de tentar cortar. Esses excedentes são aparados manualmente no acabamento.

Porque “sem corte” é, muitas vezes, a opção mais segura com fio grosso
Além do risco de danificar o cortador, as pontas de fio grosso são difíceis de controlar: se a máquina cortar e deixar uma ponta curta, esta pode saltar do olho da agulha e a máquina fica desenfiada logo a seguir. Mantendo o fio contínuo, reduz-se a probabilidade de desenfiar durante o trabalho.
Executar o desenho: dicas para um acabamento limpo
A partir daqui, o operador passa a ter um papel mais ativo: monitoriza alimentação, som e comportamento do calcador.

Passo 7 — Preparação do desenho e execução (03:12–04:45)
- Atribuir agulha: mapear a Cor 1 do desenho para a Agulha 15 (ou a agulha onde está o fio grosso).
- Selecionar modo: escolher C4 (no vídeo surge associado a “Applique”), conforme o controlador da máquina.
- Ponto de arranque: selecionar “Offset point”.
- Arranque:
- Premir Start.
- Nos primeiros pontos, controlar a ponta inicial do fio.
- Após o lock stitch ficar seguro, cortar o excedente e afastar/organizar o fio (no vídeo: “Cut and wrap the excess yarn”).
- Durante a execução: observar se a bobine de fio desenrola de forma constante, sem puxões.
- Mudança de cor: se o desenho passar para linha normal, seguir a lógica indicada no vídeo (evitar usar as agulhas 14 e 15 para a segunda cor; escolher outra agulha/cor).
Pontos de controlo:
- O fio alimenta suavemente através do guia intermédio.
- O calcador não toca no bastidor nem na chapa.
- Os saltos estão a ser feitos sem corte (não há tentativa de cortar o fio grosso).
Resultado esperado: Um bordado com textura 3D, com loops bem formados e visual “chenille”.


Checklist de operação (fim desta secção)
- Agulha 15: Confirmar “Jump without trimming” ativo.
- Tesoura pronta: Necessária para gerir a ponta inicial e o excedente.
- Escuta ativa: Um “clack” seco pode indicar contacto do calcador — parar de imediato e rever a folga.
- Observação da bobine: Rotação irregular ou abanões sugerem encravamento no percurso.
- Zona da bobina: No final, verificar se não há acumulação excessiva de fibras/cotão.
Caminho de melhoria de eficiência (quando isto passa a ser produção)
O bordado com fio grosso é, por natureza, mais lento do que o bordado standard. Para ser rentável, é essencial reduzir tempos mortos. Em peças grossas, a montagem no bastidor com parafuso é frequentemente o maior gargalo.
- Gargalo: apertos demorados = fadiga + posicionamento inconsistente.
- Solução: uma estação de colocação de bastidores magnética permite colocar o bastidor com rapidez e repetibilidade.
- Escala: se houver produção recorrente com técnicas mistas (linha standard + fio grosso), faz sentido organizar o trabalho por agulha/configuração para reduzir trocas e reajustes.
Preparação
Embora o vídeo se foque na troca mecânica, na prática é na preparação que se “salva” o trabalho.
Árvore de decisão: tecido + estabilizador (simples e prática)
O fio grosso é pesado. Use esta lógica para escolher a base.
Árvore de decisão: Tecido → abordagem ao estabilizador
- O tecido é malha (jersey, fleece, piqué)?
- Sim: preferir cut-away para suportar o peso do ponto.
- Montagem no bastidor: evitar esticar em excesso; se ficar “como um tambor”, tende a franzir ao sair do bastidor.
- O tecido é tecido plano (canvas, ganga, sarja)?
- Sim: tear-away pode funcionar, mas cut-away continua a ser mais robusto.
- Montagem no bastidor: pode ser mais firme.
- A peça é muito espessa (hoodie pesado, casaco grosso)?
- Sim: bastidores standard podem “saltar”. Um sistema magnético ajuda a segurar a espessura sem depender tanto do encaixe por fricção.
Checklist de configuração (fim desta secção)
- Energia: máquina bloqueada/desligada para instalação.
- Hardware: calcador de fio grosso instalado; parafuso apertado.
- Folga: validada com Allen de 5 mm (sem contacto).
- Agulha: centrada no orifício do calcador.
- Percurso: fio passa pelo guia largo e sem pontos de estrangulamento.
- Software: cortes desativados para a agulha do fio grosso.
Resolução de problemas
Quando o fio grosso falha, tende a falhar de forma “dramática” (ninhos, encravamentos, desenfiar). Use esta lógica.
Sintoma: calcador/agulha bate no tecido ou no bastidor (som “clack”)
- Causa provável: folga definida para bordado standard, não para fio grosso.
- Solução: parar de imediato. Voltar a medir com a Allen de 5 mm. Desapertar os parafusos laterais e elevar o conjunto até a chave deslizar livremente.
Sintoma: loops apertados, finos, ou a puxar o tecido
- Causa provável: demasiado arrasto no percurso do fio.
- Solução: verificar se o fio corre livremente, sem prender no suporte/guia; confirmar que não está a ser travado por fricção excessiva no percurso.
Sintoma: o fio sai da agulha após um salto
- Causa provável: a máquina tentou cortar e a ponta saltou do olho.
- Solução: rever as definições: “Jump and trim stitch” = No e Agulha 15 = “Jump without trimming”.
Sintoma: “E-Stop” ou erro do motor do cortador
- Causa provável: tentativa de corte do fio grosso e encravamento do mecanismo.
- Solução: desligar, limpar detritos e desativar cortes antes de retomar (seguir o manual para reposicionar o mecanismo, se necessário).
Se houver luta constante com posicionamento em peças grossas, “a olho” raramente é consistente. Uma abordagem sistemática com ferramentas como smartstitch s1501 e soluções de colocação de bastidor para máquina de bordar ajuda a estabilizar tempos e repetibilidade.
Resultados

Ao aumentar sistematicamente a folga mecânica para 5 mm, criar um percurso de fio com baixa fricção e desativar o cortador automático, transforma-se uma operação arriscada num processo muito mais controlável.
O resultado deve ser um bordado rico e tátil, com relevo evidente — ideal para letras universitárias, florais retro e aplicações de streetwear premium. A máquina dá o movimento; a configuração dá a segurança. Respeitar a “física” do fio, manter a folga alta e controlar os cortes é o que separa um teste de um acabamento profissional.
