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As placas reutilizáveis tipo ardósia são daqueles projectos que parecem “de boutique” — como um artigo de 25 € numa feira de artesanato — mas que podem ser produzidos de forma fiável quando se domina a arquitectura de camadas. No sector, isto é construção In-The-Hoop (ITH): uma sequência controlada de costura de marcação (placement), fixação (tackdown) e acabamento.
Neste tutorial em formato masterclass, vamos bordar um projecto estilo Pickle Pie “Sew Me a Sign” totalmente no bastidor. Vamos substituir o centro por tecido/vinil de quadro preto (para escrever com marcador de giz líquido e apagar) e, para quem quer ganhar consistência e escalar produção, vamos também alterar o ficheiro no software Floriani para criar um ficheiro de corte digital (SVG) — arestas perfeitas, sempre.

No final deste guia, será capaz de:
- Edição destrutiva: Remover o lettering original para criar uma base em branco, reutilizável.
- Precisão no corte: Gerar um SVG com a folga correcta para garantir sobreposição e evitar falhas na cobertura.
- Montagem por adesão (“floating”): Montar apenas o estabilizador no bastidor e trabalhar por cima, reduzindo marcas do bastidor e resíduos.
- Gestão do “sanduíche”: Controlar uma pilha de camadas (estabilizador + fita + reforço + tecido superior + inserto de ardósia) sem deslocações.
- Recorte cirúrgico: Recortar com segurança junto às fitas de suspensão sem as cortar (erro muito comum na fase final).

Materiais necessários para placas ITH tipo ardósia
É possível executar este projecto numa máquina doméstica de 1 agulha com bastidor standard 5x7. No entanto, os princípios de fluxo de trabalho descritos aqui aplicam-se igualmente a quem trabalha com máquinas de bordar multiagulhas.

Materiais principais (o “sanduíche”)
- Tecido/vinil de quadro preto (blackboard fabric): Nota: é um material denso. Trabalhar com agulha nova ajuda a manter a perfuração limpa.
- Tecido superior: Algodão estampado (tipo patchwork).
- Suspensão: Fita ou rick rack (aprox. 6 polegadas).
- Estabilizador: Estabilizador autocolante hidrossolúvel (com papel protector). Crítico para arestas limpas.
- Reforço/estruturante: Um reforço próprio para costurar através (ex.: Stitch N Shape). Deve manter forma, mas permitir a passagem da agulha sem forçar.
- Adesivo: Teia termocolante para aplicação (ex.: Appli-Stick) aplicada no avesso do tecido superior e do tecido de costas.
- Marcação: Marcadores de giz líquido.
Consumíveis “escondidos” e verificações de preparação (onde falha 80% dos projectos)
Na prática, os projectos ITH raramente falham por causa do desenho; falham por causa da preparação física e da sequência.
- Agulha: Usar uma agulha nova e adequada ao conjunto (algodão + reforço + vinil/blackboard). Se notar pontos falhados ou perfuração difícil, é um sinal típico de agulha cansada ou inadequada.
- Tesouras: Idealmente duas: 1) pequena para cortar linhas; 2) tesoura de aplicação tipo “duckbill” para recortar rente à linha de fixação.
- Bobina: Deve estar bem enrolada. Uma bobina “fofa” tende a criar laçadas/tensão irregular no verso, o que estraga o acabamento limpo típico de ITH.
- Limpeza: Escova/escovilhão para a caixa da bobina. Materiais densos e reforços geram mais resíduos do que algodão simples.
Mentalidade de produção: Se a ideia for fazer séries (por exemplo, 20+ unidades), o esforço de apertar/desapertar bastidores de parafuso torna-se um gargalo. É comum usar estações de colocação de bastidores para alinhar e repetir a colocação com consistência e menos esforço físico.
Checklist de preparação (antes de abrir o desenho)
- [ ] Bastidor: Confirmar que a área de bordado do bastidor corresponde ao tamanho do ficheiro (5x7 ou superior).
- [ ] Medidas: Cortar a fita/rick rack com comprimentos consistentes (ex.: 6" para frascos, 8" para placas de porta).
- [ ] Preparação do adesivo: Aplicar a teia termocolante no avesso do tecido superior e do tecido de costas. (No vídeo, a película é retirada no momento de aplicar, mas ter tudo preparado acelera o fluxo.)
- [ ] Corte digital (se aplicável): Preparar lâmina adequada para cortar o material de ardósia e/ou o reforço.
- [ ] Velocidade: Em camadas espessas, reduzir a velocidade ajuda a manter estabilidade e qualidade de ponto.

Passo 1: Modificar o desenho no software Floriani
O vídeo mostra uma personalização muito útil: transformar uma placa com texto num “campo” em branco. Isto converte um desenho de uso único numa base reutilizável para várias aplicações.
A. Remover o lettering (a “base em branco”)
- Abrir o desenho no software (Floriani, etc.).
- Separar/desagrupar as camadas, se necessário.
- Seleccionar os objectos de lettering no centro.
- Eliminar.
Resultado esperado: Permanecem as linhas de colocação e de fixação e a borda de acabamento, mas o centro fica sem texto.
B. Criar um ficheiro SVG de corte (a parte “engenharia”)
A lógica da aplicação é simples: a linha de corte tem de ser maior do que a linha de colocação. Se cortar exactamente em cima da linha que vai ser cosida, o ponto de acabamento pode ficar sem “margem” e abrir falhas.
- Seleccionar a forma da linha de colocação.
- Copiar e colar numa nova janela/página.
- Criar contorno (Outline): usar a ferramenta de contorno com Zero Spacing.
- Redimensionar para tolerância: aumentar o contorno. No vídeo, passa de 3.75" para 4.25".
- A conta: um aumento total de 0.5" dá 0.25" de folga em cada lado.
- Eliminar a linha interior original.
- Exportar a nova forma como SVG para a máquina de corte (Cricut/Silhouette).
Porque funciona: ao colocar uma peça pré-cortada, essa folga garante que a costura de fixação fica bem “dentro” do material, reduzindo risco de falhas e melhorando o acabamento.
Nota de consistência: para produção repetitiva, o corte digital dá repetibilidade. Essa repetibilidade combina bem com bastidores de bordado magnéticos, porque a fixação das camadas torna-se mais rápida e uniforme do que em bastidores tradicionais.

Passo 2: “Flutuar” o projecto com estabilizador autocolante
Aqui usa-se uma técnica de “floating”: monta-se apenas o estabilizador no bastidor e todas as outras camadas são colocadas por cima. Isto ajuda a evitar marcas do bastidor em materiais mais sensíveis.

A. Montagem no bastidor do estabilizador
- Montar no bastidor uma folha de estabilizador autocolante hidrossolúvel com o papel protector virado para cima.
- Verificação táctil: deve ficar tenso e uniforme, sem “ondas”.
- Abrir o papel (“score”): com um alfinete tipo T (T-pin) ou agulha, riscar levemente um “X” no centro do papel.
- O objectivo é cortar o papel, sem cortar o estabilizador.
- Retirar o papel para expor a superfície autocolante.

Porque hidrossolúvel e autocolante?
O estabilizador rasgável (tear-away) tende a deixar fibras (“pelos”) presas sob o ponto de acabamento, o que num projecto de aresta limpa fica com aspecto amador. O hidrossolúvel pode ser removido com uma esponja húmida, deixando a borda visualmente mais nítida.
Em máquinas Brother/Baby Lock, é comum que bastidores standard tenham mais dificuldade em manter camadas rígidas perfeitamente planas. Quem está a considerar um bastidor de bordado magnético para brother procura precisamente uma fixação mais estável em “sanduíches” espessos.
Passo 3: Gestão de camadas e sequência de costura
O sucesso em ITH é, em grande parte, disciplina de camadas.

Pilha de camadas (de baixo para cima)
- Estabilizador (montado no bastidor).
- Fitas de suspensão (presas ao estabilizador).
- Reforço (Stitch N Shape).
- Tecido superior (com Appli-Stick no verso).
- Inserto de ardósia (camada superior nesta fase).
- Tecido de costas (aplicado no verso mais tarde).
A. Colocação e fitas
- Colocar o bastidor na máquina.
- Bordar a primeira cor/etapa: linha de colocação (marca onde entra o reforço).
- Acção: posicionar as argolas de fita/rick rack nas marcas indicadas e pressionar bem as pontas na cola do estabilizador.
- Teste rápido: puxar suavemente; se levantar, reforçar a fixação antes de continuar.
B. Reforço e tecido superior
- Colocar o Stitch N Shape centrado dentro da linha de colocação.
- No vídeo, a vantagem deste reforço é manter a forma após uso/limpeza, ao contrário de alguns entretelas rígidas que vincam.
- Colocar o tecido superior (com Appli-Stick já aplicado) por cima do reforço e alisar.
- Verificação táctil: passar a palma da mão do centro para fora para expulsar bolhas/ondulações.

C. Inserto de ardósia (blackboard)
- Bordar a linha de colocação do campo de ardósia.
- Colocar a peça de blackboard fabric (pré-cortada ou cortada grosseiramente) por cima.
- Bordar a costura de fixação (tackdown).

Nota prática: se o material de ardósia “empurrar” ou deslizar durante a costura, pode ser sinal de instabilidade do conjunto no bastidor. Em trabalhos com camadas espessas, um bastidor de bordado magnético é frequentemente escolhido por aplicar pressão vertical uniforme.
Dica crítica: recortar sem estragar o trabalho
O recorte é a fase de maior risco: um deslize cria um buraco ou corta a fita.

A. Recortar o inserto de ardósia
Se não foi pré-cortado com máquina de corte, é aqui que se recorta.
- Retirar o bastidor da máquina (sem desmontar o estabilizador do bastidor).
- Usar tesoura de aplicação tipo duckbill.
- Técnica: manter a lâmina larga encostada ao material que se quer preservar e cortar o excesso com a lâmina afiada.
- No vídeo, a referência de margem é 0.25" em volta da linha (folga para cobertura e acabamento).

B. A “zona de perigo” da fita
Parar e verificar onde a fita entra na placa. Se cortar a direito atravessando todas as camadas, é muito fácil cortar a argola.
Protocolo seguro (como no vídeo):
- Separar/levantar as camadas.
- Localizar visualmente a fita.
- Recortar a camada da frente isoladamente na zona da fita.
- Depois, recortar a camada de trás separadamente, mantendo a fita fora do caminho.

Métrica de sucesso: a borda fica limpa e a argola de fita permanece intacta e bem presa dentro das camadas.
Acabamentos: saída limpa e aspecto profissional
A. Aplicar o tecido de costas (esconder o “lado feio”)
- Retirar o bastidor da máquina e virar.
- Retirar o papel do tecido de costas (preparado com Appli-Stick).
- Colar no verso do bastidor, cobrindo totalmente a zona de pontos e as pontas da fita.
- No vídeo, a vantagem do autocolante é evitar fita-cola, que pode enrolar/descolar.

B. Costura final e recorte exterior
- Voltar a colocar o bastidor na máquina e confirmar que o tecido do verso não ficou preso.
- Bordar a borda final (ponto de acabamento/decorativo).
- Retirar do bastidor.
- Recortar o excesso exterior conforme indicado no projecto (no vídeo, a referência do molde original é deixar cerca de 0.5" no exterior antes do acabamento final).
- Limpeza: passar uma esponja húmida na borda para dissolver resíduos do estabilizador hidrossolúvel.
Nota de produtividade (sem promessas): em séries, ferramentas como um bastidor de bordado magnético 5x7 para Brother podem acelerar a colocação/retirada e reduzir esforço manual, sobretudo com camadas espessas.
Árvore de decisão: estabilizador e estratégia de bastidor
Use esta lógica para escolher a configuração mais adequada.
- O material é espesso/denso (vinil, feltro, “blackboard”)?
- Sim: privilegiar “floating” (montar apenas o estabilizador) e/ou considerar bastidores de bordado magnéticos para reduzir marcas do bastidor.
- Não: a montagem tradicional no bastidor pode ser suficiente.
- Vai fazer 1 unidade ou uma série?
- 1 unidade: recorte manual e bastidor standard funcionam.
- Série: ficheiros SVG + corte digital ajudam a manter consistência; bastidores magnéticos podem reduzir tempo de manuseamento.
- Precisa de uma aresta “limpa de loja”?
- Sim: usar estabilizador autocolante hidrossolúvel.
- Não: rasgável é mais rápido, mas tende a deixar fibras visíveis.
Resolução de problemas (sintoma → causa provável → correcção)
| Sintoma | Causa provável | Correcção imediata | Prevenção |
|---|---|---|---|
| Fita cortada | Recorte às cegas através de todas as camadas na zona de fixação. | Repetir a peça. | Separar camadas e recortar frente/verso separadamente na zona da fita. |
| Arestas com “pelos”/fibras | Estabilizador rasgável deixa resíduos fibrosos. | Humedecer e limpar (se possível) ou aparar cuidadosamente. | Usar estabilizador autocolante hidrossolúvel e limpar com esponja húmida. |
| Inserto com recorte irregular | Recorte manual inconsistente. | Não há correcção perfeita após a costura. | Usar tesoura duckbill e/ou pré-corte digital (SVG). |
| Deslocação do material de ardósia | Instabilidade do “sanduíche” no bastidor. | Parar, reposicionar e garantir aderência. | Melhorar fixação/pressão; em alguns fluxos, bastidor magnético ajuda. |
| Cortar a fita na última fase | Recorte exterior feito sem isolar a zona da fita. | Repetir a peça ou substituir a fita (se o projecto permitir). | Na zona da fita, levantar camadas e recortar cada lado separadamente (como no vídeo). |
Resultado: padrão “profissional”
Um bom resultado não é apenas “ficou pronto”. Uma placa ITH com aspecto profissional tem:
- Sem marcas do bastidor visíveis no material de ardósia.
- Margem de segurança: o ponto de acabamento cobre bem a borda, sem tecido cru a aparecer.
- Arestas limpas: sem fibras de estabilizador visíveis.
- Estrutura: mantém forma graças ao reforço, mas continua utilizável.
Dominar densidade, camadas e recorte é o que separa um projecto “caseiro” de um produto consistente.
Checklist de configuração (pronto para bordar?)
- [ ] Estabilizador: autocolante hidrossolúvel montado no bastidor com papel para cima; papel riscado e removido.
- [ ] Agulha: nova e adequada a materiais densos.
- [ ] Bobina: cheia, bem enrolada e zona limpa.
- [ ] Velocidade: reduzida para maior controlo em camadas espessas.
Checklist de operação (verificação a meio)
- [ ] Fita: bem presa ao estabilizador (teste de puxão ok).
- [ ] Reforço: plano, sem bolhas.
- [ ] Inserto: recortado com margem correcta antes do acabamento final.
- [ ] Zona da fita: camadas separadas e recortadas individualmente.
- [ ] Costas: aplicadas no verso a cobrir totalmente a zona de pontos.
