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Introdução à ferramenta Applique do Hatch
A digitalização de aplicações (appliqué) no Hatch parece simples num ecrã limpo — até passar para a máquina e aparecer a realidade da “física da costura”. É aí que surgem problemas típicos: volume excessivo que aumenta quebras de agulha, arestas a desfiar que acabam por “furar” o ponto satinado, ou uma sequência de bordado que obriga a parar e a recortar tecido várias vezes, reduzindo drasticamente a produtividade.
Depois de muitos anos a lidar com produção, há uma regra que não falha: a máquina não “vê” o ficheiro bonito — só reage ao conjunto linha + agulha + tecido + estabilização.
Neste guia em estilo “whitepaper” (mas escrito para ser executável no dia-a-dia), fica com um fluxo completo usando as ferramentas de Applique do Hatch: como digitalizar uma forma limpa, escolher o estilo certo (Pre-cut vs. Trim-in-place), ajustar tack e cover para o comportamento do tecido, reduzir volume perigoso em sobreposições e, no fim, reordenar tudo para uma execução mais eficiente na máquina.

Um lembrete prático: as definições do software são apenas parte do resultado. A outra parte vem da estabilidade no bastidor, do comportamento do tecido e do esforço do operador (especialmente quando há recorte manual). Se a intenção é bordar aplicações com regularidade — em peças de vestuário ou em lotes — o objectivo deve ser reduzir manuseamentos e eliminar volume ao mesmo tempo.


Passo a passo: digitalizar a primeira forma
Passo 1 — Seleccionar a ferramenta Digitize Applique
No menu Toolboxes (vertical, à esquerda), expandir Applique e clicar em Digitize Applique. Assim que a ferramenta fica activa, as propriedades “inteligentes” do objecto aparecem no painel Object Properties (à direita).

Ponto de controlo: Confirmar imediatamente no Object Properties que existem secções específicas de appliqué (por exemplo: Fabric, Style, Tack, Cover). Se não aparecerem, a ferramenta não está activa.
Resultado esperado: Fica a trabalhar com um “smart object” de appliqué — ou seja, o Hatch entende que a forma precisa de sequência de colocação/guia, fixação (tack) e cobertura (cover), e não apenas de um contorno simples.
Passo 2 — Digitalizar a forma com nós limpos
Escolher uma cor para distinguir o objecto e começar a marcar pontos.
- Clique esquerdo para cantos (nós) mais “vivos”.
- Clique direito para curvas.
- Regra de ouro: usar o mínimo de nós possível. Cada nó extra pode traduzir-se num pequeno “soluço” no movimento da máquina. Uma curva suave com 3 nós tende a bordar melhor do que uma curva instável com 10.
- Ao aproximar-se do ponto inicial, premir Enter para fechar automaticamente a forma.



Ponto de controlo: Ampliar (por exemplo, 400%) e verificar se o contorno está contínuo e fechado. Se houver linhas a cruzarem-se (“esparguete”), apagar e repetir. Para o appliqué funcionar correctamente, a forma tem de estar fechada.
Resultado esperado: Uma forma fechada e limpa (como o coração no vídeo) que vai servir de “contentor” para o tecido da aplicação.
Limpeza opcional da vista (ajuda na precisão)
Para ver melhor o caminho de digitalização, pode ocultar a arte de fundo depois de terminar o contorno:
- Ir a View
- Seleccionar Show Design e desmarcar o ficheiro vectorial.

Dica profissional: memorizar o atalho Shift + D. Liga/desliga a imagem vectorial rapidamente, permitindo comparar o contorno com a arte original sem andar em menus.

Compreender as definições de estilo: Pre-cut vs. Trim-in-place
Depois de digitalizar a forma, ir a Object Properties > Style. Isto não é apenas uma opção do software — é uma decisão de fluxo de trabalho que define como se vai interagir fisicamente com a máquina.
Pre-cut
O Pre-cut gera uma única linha de ponto corrido.
- Lógica: o tecido da aplicação já foi cortado previamente (por molde, corte a laser, plotter, etc.) com a forma final.
- Acção: a máquina cose uma linha-guia, coloca-se o recorte já perfeito sobre essa guia e a máquina fixa com o tack.
- Quando faz sentido: produção com volume, onde parar para recortar à tesoura compromete o tempo por peça.
Trim-in-place
O Trim-in-place gera duas linhas de ponto corrido:
- Linha de colocação (Placement Line): indica onde posicionar um recorte “grosseiro” (por exemplo, um quadrado/retângulo de tecido).
- Linha de fixação para recorte (Cut Line): prende ligeiramente o tecido para permitir recortar o excesso com a tesoura com o bastidor montado.
No vídeo, é recomendado Stitch Length = 2.50 mm para estas linhas, para manter curvas suaves sem perfurar em excesso.

Ponto de controlo: No simulador (“Player”) do Hatch, em Trim-in-place deve ver a agulha percorrer a forma duas vezes antes de começar a cobertura final.
Resultado esperado: Uma estrutura de ficheiro alinhada com as ferramentas reais (recorte prévio vs. recorte à tesoura).
Conselho prático de selecção (o que pesa na produção)
Quando o recorte é manual, o Trim-in-place funciona como “rede de segurança”: primeiro fixa o tecido e só depois se recorta, reduzindo a probabilidade de o tecido deslizar.
Ainda assim, recortar dentro de um bastidor standard pode ser desconfortável: o tecido fica muito tensionado e a tesoura “empurra” o material (efeito trampolim). É uma das razões pelas quais muitos profissionais passam para bastidores de bordado magnéticos: em vez de dependerem de tensão por fricção, aplicam uma pressão de aperto mais uniforme, facilitando introduzir a tesoura sob o tecido da aplicação e reduzindo o risco de marcas do bastidor.
Personalizar pontos de fixação (Tack) e de cobertura (Cover)
Aqui entra a integridade estrutural da aplicação. Tudo isto é ajustado em Object Properties.
Passo 3 — Definir o tipo de tack e os valores
O Tack é a ancoragem. Se ficar fraco, o tecido pode mexer.
- Tack Stitch Type: no vídeo é usado Blanket (ponto tipo caseado), mas também existem opções como Single Run e Zigzag.
- Tack Stitch Spacing: no vídeo, 3.00 mm.
- Tack Stitch Width: no vídeo, 2.10 mm.

Ponto de controlo: No preview, o tack deve ficar dentro da linha de colocação, não por cima dela.
Resultado esperado: Fixação segura e plana. Se o tecido aparentar “ondular” entre pontos no preview, reduzir o espaçamento.
Passo 4 — Definir o cover e os valores
O Cover é o acabamento visível. No vídeo, é usado Satin (ponto satinado), que é o padrão mais comum.
- Cover Stitch Type: Satin.
- Cover Stitch Spacing: 0.40 mm.
- Cover Stitch Width: 2.50 mm.
- Offset: 0.00 mm.
Ponto de controlo: A coluna de satinado tem de cobrir a aresta do tecido e o tack.
Resultado esperado: Uma coluna uniforme que esconde a mecânica por baixo.
Nota técnica: onde é fácil falhar
O vídeo mostra 2.50 mm de largura de cover. Em prática, se o recorte ficar ligeiramente “folgado”, pode não cobrir totalmente a aresta. Em vez de prometer um valor “certo” universal, a recomendação operacional é simples: validar no simulador e testar numa amostra antes de produção.
Além disso, a consistência da montagem no bastidor influencia muito o resultado. Uma estação de colocação de bastidores para bordado ajuda a repetir posicionamentos com menos variação, especialmente quando se trabalha com recortes pré-cortados.
Gerir volume: usar Partial Applique para remover sobreposições
O volume é inimigo do bordado. Várias camadas de satinado sobrepostas aumentam rigidez e risco mecânico.
Passo 5 — Duplicar formas rapidamente
Em vez de voltar a digitalizar, duplicar para manter consistência.
- Seleccionar o coração.
- Clique direito e arrastar para uma nova posição.
- Largar para criar uma cópia.

Ponto de controlo: Confirmar que existem objectos distintos na lista de sequência (Resequence), e não um único objecto agrupado.
Resultado esperado: Três corações idênticos, com sobreposição controlada.
Passo 6 — Adicionar pré-visualização do tecido da aplicação para revelar desperdício
A visualização ajuda a antecipar volume real.
- Em propriedades, clicar em Applique Fabric.
- Escolher uma textura/tecido contrastante (no vídeo, um Aida amarelo).


Ponto de controlo: As zonas de sobreposição devem ficar visualmente evidentes, indicando onde haveria pontos “a mais”.
Resultado esperado: Um “mapa” claro das áreas onde a máquina iria coser camadas desnecessárias.
Passo 7 — Remover sobreposições e, depois, apagar mesmo os pontos desperdiçados
Este é o passo mais crítico para reduzir volume.
- Seleccionar o objecto de cima (o que cobre os outros).
- Clicar em Remove Overlaps na barra de ferramentas.
- Nuance importante (do vídeo): isto apenas oculta inicialmente. Para remover os pontos desnecessários, seleccionar todos os corações e aplicar Partial Applique.
O Partial Applique é o comando que instrui o Hatch a não gerar (ou a simplificar) pontos nas zonas ocultas, eliminando volume onde não faz falta.


Ponto de controlo: Ampliar a intersecção. O satinado deve parar exactamente onde fica “por baixo” do coração seguinte, em vez de continuar a acumular camadas.
Resultado esperado: Um desenho mais flexível e utilizável, com menos rigidez e menor risco de quebras.
Porque isto importa na máquina (não é só estética)
Ignorar sobreposições pode levar a:
- Deflexão da agulha: bater numa “crista” de pontos e desviar.
- Desgaste/partir linha: fricção e aquecimento aumentam em zonas densas.
- Perda de fixação no bastidor: áreas muito densas exigem mais estabilidade.
Em trabalhos com impacto e densidade, a estabilidade do bastidor torna-se determinante. É por isso que, em muitos fluxos de produção, se recorre a um bastidor de bordado magnético para manter pressão consistente sem estar a reapertar continuamente.
* Risco de entalamento: manter os dedos fora da zona de contacto.
* Dispositivos médicos: manter afastado de pacemakers/ICD/bombas de insulina.
* Electrónica: evitar colocar telemóvel ou cartões directamente sobre os ímanes.
Finalizar para a máquina: a função Combine Applique
Por defeito, o Hatch tende a coser “por objecto”: Coração 1 (colocar, fixar, cobrir), depois Coração 2, etc. Em produção, isto aumenta paragens e obriga a estar sempre junto à máquina.
Passo 8 — Usar Combine Applique para optimizar a sequência
O objectivo é agrupar tarefas: primeiro todas as linhas de colocação, depois todos os tacks e, por fim, todas as coberturas.
- Seleccionar todos os objectos.
- Clicar em Combine Applique.


Surge um aviso: “Applique properties will be lost.” Na prática, significa que os objectos deixam de ser editáveis como appliqué e passam a pontos “crus”.
Ponto de controlo: Na lista de cores/objectos, em vez de 3 corações completos, deve ver blocos por função (por exemplo: todas as colocações, depois todos os tacks, depois todos os covers).
Resultado esperado: Um ficheiro mais eficiente: coloca tecido para todos, fixa todos, recorta todos, e só depois deixa a máquina fazer as coberturas com menos interrupções.
Salvaguarda obrigatória: guardar o mestre editável
Regra prática: não sobrescrever o ficheiro fonte.
- Guardar como
Hearts_Master.EMB(editável). - Executar Combine Applique.
- Guardar como
Hearts_Production.DST(ou o formato da máquina).
Se sobrescrever o mestre, perde a capacidade de ajustar facilmente parâmetros como largura do tack ou do cover.
Preparação
No appliqué, a preparação pesa tanto como a digitalização. Um ficheiro perfeito pode falhar com agulha gasta, tesoura sem corte ou estabilização inadequada.
Consumíveis e verificações (não saltar)
- Adesivos temporários: spray reposicionável para manter o tecido da aplicação plano antes do tack.
- Tesoura curva: facilita recortar perto do ponto sem bater no bastidor.
- Agulhas: escolher agulha adequada ao material e densidade (substituir ao primeiro sinal de desgaste).
- Marcação: caneta/lápis apropriada para marcar eixos e posicionamento.
- Ferramentas de precisão: em volume, uma estação de colocação de bastidores para bordado melhora repetibilidade no posicionamento.
Checklist de preparação (antes de digitalizar e antes de bordar)
- [ ] Encolhimento: o tecido da aplicação encolhe? Considerar pré-lavagem se a peça final for lavada.
- [ ] Decisão de estilo: Pre-cut (exige recorte preciso) ou Trim-in-place (exige recorte à tesoura).
- [ ] Agulha: está nova e sem rebarbas?
- [ ] Bobina: há linha suficiente para coberturas densas?
- [ ] Tesoura: corta bem até à ponta?
- [ ] Escolha do bastidor: segura sem distorcer a trama e sem deixar marcas do bastidor excessivas?
Configuração
Preparar o desenho para uma costura previsível
Antes de bordar, visualizar o caminho mecânico.
- Montagem no bastidor: o tecido deve ficar bem esticado e estável. Se estiver solto, a linha de colocação pode parecer correcta no ecrã mas deformar na costura.
- Estabilizador (entretela) de bordado: é a fundação do conjunto.
Se o problema recorrente forem marcas do bastidor ou dificuldade em manter estabilidade consistente, um bastidor de bordado magnético pode ajudar por aplicar pressão uniforme sem “luta” de aperto.
Árvore de decisão: estratégia de estabilizador para appliqué (orientada ao tecido)
Seguir esta lógica para definir o “sanduíche”:
- A peça base é elástica (malha, sweatshirt, knit)?
- SIM: considerar estabilizador de corte (cutaway) para suporte contínuo.
- NÃO: avançar.
- A peça base é estável (ganga, lona, sarja)?
- SIM: um estabilizador destacável (tearaway) pode ser suficiente, dependendo da densidade e do ponto.
- Existe pêlo/altura (toalha turca, veludo)?
- SIM: pode ser necessário um “topping” solúvel em água por cima para evitar que o satinado afunde.
Checklist de configuração (antes de executar Combine Applique)
- [ ] Simulação: correr o “Stitch Player” e confirmar que a sequência faz sentido.
- [ ] Sobreposições: confirmar que
Remove Overlaps+Partial Appliqueeliminaram zonas densas. - [ ] Nós/pontos: verificar se não existem micro-pontos indesejados.
- [ ] Cópia de segurança: o ficheiro mestre EMB está guardado?
Operação
Fluxo limpo e repetível (ordem recomendada)
- Digitalizar a forma (Passos 1–2). Menos nós = movimento mais suave.
- Escolher o estilo: Pre-cut ou Trim-in-place.
- Configurar Tack (Passo 3).
- Configurar Cover (Passo 4).
- Duplicar e organizar (Passo 5).
- Optimizar: pré-visualizar tecido, verificar sobreposições, aplicar
Remove Overlaps+Partial Applique(Passos 6–7). - Finalizar: guardar mestre e só depois
Combine Applique(Passo 8).
Em produção, o gargalo raramente é a máquina — é o tempo de manuseamento e montagem. Integrar um kit de produtividade de colocação de bastidor para máquina de bordar (por exemplo, estação + bastidor magnético) pode reduzir tempo por unidade, mas o ganho real depende do operador, do artigo e do processo.
Checklist de operação (antes de enviar para a máquina)
- [ ] Velocidade: considerar reduzir a velocidade durante fases de recorte/maior densidade.
- [ ] Percurso da linha: confirmar alimentação livre.
- [ ] Paragens de appliqué: confirmar se a máquina interpreta correctamente paragens/códigos (quando aplicável).
- [ ] Plano de recorte: tesoura pronta antes de iniciar.
Resolução de problemas
Sintoma: “pelos”/arestas cruas a aparecerem no satinado
Causa provável: recorte demasiado largo ou cover estreito. Verificação rápida: ampliar no simulador e confirmar se a largura do satinado cobre a aresta prevista. Solução: melhorar o recorte e/ou ajustar a largura/densidade do cover conforme necessário; testar numa amostra.
Sintoma: enrugamento (puckering) à volta da aplicação
Causa provável: instabilidade/“flagging” (o tecido levanta com a agulha). Verificação rápida: observar se o tecido “salta” durante a fixação. Solução: reforçar estabilização e melhorar a montagem no bastidor. Um sistema de bastidores de bordado magnéticos pode ajudar a aplicar pressão consistente e reduzir o “bounce”, dependendo do artigo.
Sintoma: quebra de agulha / som de “batida” forte
Causa provável: excesso de volume (sobreposições não removidas) ou acumulação de cola na agulha. Verificação rápida: inspecionar zonas de intersecção e confirmar se o Partial Applique foi aplicado. Solução: trocar a agulha e limpar; optimizar sobreposições no Hatch.
Resultados
Ao seguir este fluxo orientado à produção, transforma uma função do software num processo mais robusto e repetível. O objectivo é obter:
- Segurança mecânica: menos volume = menos esforço e menos risco em zonas densas.
- Qualidade visual: curvas mais limpas e cobertura consistente.
- Eficiência operacional: sequência optimizada com
Combine Applique, com menos paragens.
À medida que se passa de testes para produção, as ferramentas e o método definem o limite. O Hatch dá controlo na digitalização; combinar isso com contenção estável — por exemplo, um bastidor de bordado magnético — ajuda a manter a aplicação plana, previsível e mais fácil de executar em contexto real.
